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julho 22, 2005

Aí vêm eles!

Aí vêm eles, grita o miúdo, agarrado à porta aberta desde manhã, sentado nos degraus desde que acordou, não queres comer nada, pergunta-lhe a avó, não tenho fome; não tem fome, não tem senão aquela sensação de ardor no estômago, umas borboletas, umas reviravoltas, um aperto que lhe sobe ao pescoço, torce as cordas vocais e o não tenho fome a sair rouco, quase em soluço, não tenho fome avó e eles que não chegam e já a avó a olhar para o céu e o dia a correr, sem fome ela também, a obrigar-se ao pão e a uma caneca de água, que está calor, ao menos bebe um golo de água e ele que não tem sede. Não tem fome nem sede, nem lhe passaria nada agora, a boca amarga da secura das saudades guardadas lá dentro durante meses, quase a saírem agora pelos olhos, é a poeira, diz a avó e esfrega os dela.

Ai vêm eles, um grito saído lá bem do fundo, o som a contar os dias e as noites passadas na casa e na escola e no quintal com a companhia dos gatos e das galinhas, das couves e dos coelhos e daquela avó que se ri pouco mas que por vezes larga um som que é quase uma gargalhada, poucas vezes, muito poucas e na voz da avó, às vezes, poucas vezes, muito poucas, menos ainda, a lembrança de um riso de uma outra voz que já nem sabe bem se é lembrança ou querença, os meses de inverno e de primavera a roerem-lhe a memória.

Aí vêm eles e o carro novo a chegar, a parar ali na porta dele, que se atrasaram de certeza porque já outras portas se fecharam atrás de outras matrículas com tantos números e letras diferentes e sempre aquele F redondo que traz no peito, marcado de distância de medo de esquecimento, ele que se lembra todos os dias e nunca sabe se lá também ainda se lembram dele, a dúvida pequena que não me levaram não podes ir vais depois, agora ficas com a avó, que eu e a tua mãe não temos quarto e aqui tens a escola e não o levaram e se calhar esqueceram-se dele. Mas o carro novo pára na porta dele e afinal ainda se lembram e quando é atirado ao ar e agarrado e abraçado mesmo estando tão grande e alto, que quase nem te conhecíamos filho, mas agora no fim do mês voltas connosco para a França, nem tem vergonha nem tem mais nada senão um coração a rebentar e as borboletas do estômago a voar.

Publicado por 100nada às julho 22, 2005 03:27 PM

Comentários

Credo!
Que até me vieram as lágrimas aos olhos... e olha que não é fácil.
Excelente, excelente :)

Publicado por: Karla em julho 22, 2005 04:04 PM

...=)
(100palavras)

Publicado por: KooKa em julho 22, 2005 04:20 PM

coisa mais linda! gosto muito da forma como escreve. até do seu "mau feitio" gosto.hoje fiquei encantada.
um abraço
graziela

Publicado por: graziela em julho 22, 2005 04:52 PM

Faço minhas as palavras da Karla! Caramba!

Publicado por: joana em julho 22, 2005 05:05 PM

Fui brevemente transportado à infância. Juro que cheguei a ouvir a cadela a ladrar lá ao fundo, a ver o caminho estreito que dava acesso ao portão de ferro, a cheirar a resina dos eucaliptos, e a sentir nas pontas dos dedos as rugas da cara da minha avó. Obrigado Catarina.

Publicado por: Professor Doutor em julho 22, 2005 05:14 PM

Infelizmente há tantos miudos que vivem assim!
Não sei se o dinheiro que os pais metem no banco chegará alguma vez para compensar falta que fizeram aos filhos...Se eles preferiam ter menos brinquedos e roupas e ter a companhia dos pais todo o ano. Este tema faz-me um bocado de impressão porque eu era incapaz de ter deixado os meus filhos...

Publicado por: saltapocinhas em julho 22, 2005 07:22 PM

Well done, sis.

Publicado por: mana em julho 22, 2005 08:51 PM

Ai a menina!!!anda para aqui a escrever umas coisas..deu-me um murro no estomâgo e a estas horas não é lá muito recomendável, pois não??:)))
Querida Catarina,obrigada,por partilhares este teu dom,por escreveres tão bem..enfim..estou ali como o prof.dr....retrocedi muitos anos e quase que toquei a minha querida avó..que tanta falta me faz..confesso que a ânsia da chegada era mais dela que minha,lidei sempre muito bem com a situação e queria era depois as minhas fériazinhas para lá da mancha,sem nunca aceitar fazer a mudança definitiva..o amor que me ligava a esta mãe era maior do que à biológica...tenho um feitio lixado.
Só quem passa pelas situações é que sabe quais são as razões que o levam a deixar um filho para trás e o dinheiro algumas vezes não é a principal.Hoje,que sou mãe,sei que não seria capaz de o fazer mas compreendo porque é que fiquei.
Beijinhos,querida,mais uma vez obrigada e bom fim de semana.

Publicado por: monalisa em julho 23, 2005 03:57 AM

pois é... um diário, uma fuga, sei lá, uma nessecidade de escrever mas nada... nenhuma recompensa... e se te dedicasses à jardinagem?
tudos dizem que escreves bem mas eu que nem gosto de ler acho, claro, uma seca... a jardinagem é fixe acredita. e sabes uma coisa à noite não tem que se fazer nada porque as plantinhas estão a dormir, podemo-nos então entregar ao prazer do sexo e dos sentidos...

Publicado por: rui em julho 23, 2005 04:45 AM

Magia, mais uma vez. E sabe sempre a pouco.
Obrigada, Catarina.

Publicado por: Susana em julho 23, 2005 10:19 AM

uau!
uma gaja até engasga a ler uma coisa escrita com tanto sentir.
beijos, grande Cat!

Publicado por: aNa em julho 23, 2005 04:38 PM

É mesmo verdade, há para aí uma Catarina "dois-em-um". Por um lado os posts de uma linha. Desabafos, piadas, observações, por veses exclamações.
E depois os outros. Os posts trabalhados, pensados, literários.
Gosto.
Gosto das duas.

Publicado por: Emiéle em julho 24, 2005 11:06 AM

:)

Publicado por: p em julho 24, 2005 12:35 PM

Gostei mesmo!

Um abração do
Zecatelhado

Publicado por: zecatelhado em julho 24, 2005 12:35 PM

hello baby, it`s me, Nini. How are you baby?

Publicado por: Nini em julho 24, 2005 04:29 PM

Beijos e abraços a todos. Sim, foi um fim de semana excelente. :)

Publicado por: catarina em julho 24, 2005 10:28 PM

Só tu para escreveres uma coisa assim... :o)
Por momentos voltei a ser pequena. Por momentos vi os meus assim.
Beijinhos mimados.

Publicado por: Cláudia em julho 25, 2005 11:45 AM